Volto a reler as tão comentadas 'Cartas Portuguesas', atribuídas a Mariana Alcoforado, a freira de Beja.
Para além do contexto específico que as motivaram, as Cartas constituem, enquanto objecto de estudo ou apenas de fruição estética, um exercício de escrita sobre a linguagem feminina, isto é, permitem-nos, ainda hoje, um olhar sobre a amplitude semântica da palavra. O texto de Mariana Alcoforado constrói-se, sobretudo, como uma inquieta e permanente interrogação da perplexidade feminina perante um mundo que continua codificado por referências masculinas.
Monólogo circular do discurso amoroso sobre uma impossibilidade consumada, as cinco cartas de Mariana não são senão um longo e último adeus, íntima evidência repetida mais para si própria do que para o amante.
Metáfora, por isso também, da incomunicabilidade - mesmo no amor - e da resignação, enquanto espaço sufocado de revolta, o universo feminino que atravessa este discurso é paradigmático de uma vivência marcada por uma diferença radical em contraponto com o universo masculino.
É essa radical diferença - que sobrevive acualmente num espaço só aparentemente comum - de postura, de mobilidade e de decisão que circunscreve, ainda hoje em dia, a fragilidade da mulher, redutoramente enquadrada nas múltiplas áreas profissionais, políticas e sociais em que se integra e age.
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sábado, 6 de março de 2010
quinta-feira, 4 de março de 2010
'Falemos de casas.'
Falemos de casas. Do sagaz exercício de um poder
tão firme e silenciosom como só houve
no tempo mais antigo.
................................................................
De doces mãos irreprimíveis,
- Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca súbtil, rodeada em cima pela treva das palavras.
Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes.
Pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
.............................................................................
E temos memória,
E absorvente melancolia,
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.
.............................................................................
Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
.............................................................................
.............................................................................
Imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmáticamente,
tocando uns nos outros -
comovidos, difíceis, dadivosos,
ardendo devagar.
Excertos do poema de Herberto Helder in 'Ofício Cantante'
tão firme e silenciosom como só houve
no tempo mais antigo.
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De doces mãos irreprimíveis,
- Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca súbtil, rodeada em cima pela treva das palavras.
Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes.
Pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
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E temos memória,
E absorvente melancolia,
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.
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Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
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Imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmáticamente,
tocando uns nos outros -
comovidos, difíceis, dadivosos,
ardendo devagar.
Excertos do poema de Herberto Helder in 'Ofício Cantante'
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